O casarão
Há casas que nascem para abrigar pessoas. Outras, raras, parecem nascer para guardar memórias. Assim é a nossa pousada: uma casa de alma paratiense, erguida em estilo colonial, pensada não apenas como morada, mas lugar de encontro, permanência e afeto. Desde o início, nos anos 1970, sua arquitetura buscou dialogar com a paisagem e a história de Paraty — o pé-direito alto, as janelas amplas, as portas coloridas, os corredores frescos onde o tempo parece caminhar mais devagar.
A casa principal foi sonhada para acolher uma família grande, amigos e visitas que nunca faltavam. Seus cinco quartos testemunharam temporadas de verão, mesas fartas, risadas atravessando as madrugadas e o movimento silencioso dos dias comuns, aqueles que mais tarde se transformam em lembrança. O piso original em ipê ainda permanece na sala, ecoando sob os passos a memória dos primeiros tempos.
Em cada canto, a matriarca Nelly imprimiu sua marca. As portas vermelhas e amarelas foram escolhidas como quem elege cores para um quadro querido. O amarelo “caterpillar”, vibrante como o sol filtrado entre as árvores, encontra o vermelho profundo, quase terroso. Nas paredes internas, a faixa vermelha lembra as antigas casas do Centro Histórico, como um fio de continuidade entre a pousada e a cidade.
Mas talvez a verdadeira alma do lugar se revele no entorno: no jardim que cresceu devagar, árvore por árvore, plantada pelas próprias mãos do casal, Dilson e Nelly – a exemplo da palmeira ao lado da varanda, semeada quando nasceu o filho caçula, Carlos. Assim, entre o perfume da terra molhada e o som dos pássaros, a pousada foi se tornando um organismo vivo, profundamente ligado à natureza ao redor.